Brasil 70: A Saga do Tri — “Prefiro ver o filme do Pelé” — Crítica Netflista
Assistir a Brasil 70: A Saga do Tri depois da eliminação da seleção em mais uma Copa pode parecer um programa para masoquistas. Mas o pior é terminar os cinco capítulos com aquela sensação de que várias oportunidades foram desperdiçadas, assim como na dolorosa derrota para a Noruega.
Produções sobre futebol de modo geral esbarram no desafio de reproduzir com fidelidade o que acontece dentro de campo. Agora imagine tentar mostrar na tela o que fizeram Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivelino e companhia?
É aí que Brasil 70: A Saga do Tri leva o primeiro gol. Por mais bem ensaiadas que sejam, as cenas dos jogos não se saem mais realistas do que um episódio de Super Campeões, o clássico anime que passava na TV Manchete.
Se a intenção era reproduzir os jogos lance a lance, por que deixar justamente de fora gols importantes, como os de Tostão? A escolha enfraquece tanto a narrativa quanto um dos personagens centrais — da Copa e da série.
As partidas convencem pouco, mas pelo menos o time da reconstrução de época jogou afinado. O design de produção impressiona, e o elenco se parece muito com os jogadores reais.
Que Pelé é esse?
Como a recriação das partidas já era uma missão quase impossível, Brasil 70: A Saga do Tri deveria compensar nas cenas dos bastidores da conquista. Mas não é isso o que acontece.
Quer dizer, até vemos alguns relances de boas jogadas, mas na maior parte do tempo o roteiro não consegue sair do zero a zero.
Eu iria além: já que estamos em uma ficção, por que não ousar? Transformar o famoso drible de Pelé sobre Mazurkiewicz em gol talvez fosse uma licença poética mais interessante do que insistir numa reprodução imperfeita da realidade.
Antes uma mentira mágica do que escolhas controversas como a de apresentar um Pelé “com crise de identidade”. Sim, havia um certo clima de desconfiança sobre o Rei antes da Copa, e a série explora bem essa parte.
Só que depois da atuação monstruosa na estreia contra a Tchecoslováquia, deviam ter reduzido a marcação sobre o nosso camisa dez. A insistência em prolongar o conflito tira espaço justamente daquilo que torna Pelé fascinante: o futebol.
Em vez de retratar o Rei como um eterno inseguro, o roteiro poderia valer-se de sua estrela para amarrar melhor outro ponto que ficou meio frouxo: a dimensão política.
Batalha de treinadores
Nesse quesito, as poucas cenas que funcionam de verdade são aquelas com João Saldanha. Por falar nele, a atuação de Rodrigo Santoro é um dos pontos altos da saga do tri.
Ainda assim, a série talvez funcionasse melhor se assumisse uma escala menor. Em vez de tentar reproduzir dentro de campo o melhor futebol da história, poderia concentrar seus esforços nos técnicos que levaram o Brasil à conquista. A troca do treinador às vésperas da Copa por Zagallo, com suas ideias novas e superstições antigas, rende algumas das melhores passagens.
Essa escolha pouparia o espectador de pelo menos um episódio com sequências desnecessárias, incluindo a do casal de torcedores que vai ao México assistir aos jogos.
No fim das contas, Brasil 70: A Saga do Tri também acaba eliminada. Mira a melhor seleção de todos os tempos, mas entrega um futebol que lembra mais um time de Carlo Ancelotti.
Ficha técnica: Brasil 70: A Saga do Tri
- Direção: Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles
- Elenco: Rodrigo Santoro, Bruno Mazzeo, Lucas Agrícola
- Ano de lançamento: 2026
- País: Brasil
Classificação: Brasil 70: A Saga do Tri:
- Direção: 3
- Roteiro: 2
- Atuações: 3
- Música: 3
- Fotografia: 3